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3 de fevereiro de 2011

Velho mar



Olho o mar
Imenso é o mar
Assim como o mar também a mente
A mente não mente não trai
Sementes da mente são pensamentos
São tudo, são nada, são imensos...
Na parede da mente são quadros

Lágrimas são lamentos
As vezes veroses
Outras vezes serenos
Tristes lamentos

Visões são variações da mente
O que agente olha e não entende
lamenta e range os dentes
Tudo simples, de repente

Se vou não volto
Se volto grito
Se penso fico

23 de dezembro de 2010

O tempo e a solidão

Sentada no batente em frente à casa, esperava por algo consolador. Havia chorado por noites. Olhava sem firmeza para o horizonte. O vento já enxugara as lágrimas que ainda restavam. E por mais que tentasse refugiar-se em pensamentos, a tristeza era sua única companhia. Anos e anos se passaram, e alguns ainda estavam por completar-se. Já não tinha a juventude de antes, mãos enrugadas e tremulas, pele pálida, corpo franzido e ainda as mesmas marcas. Vivia por viver mesmo, era a única razão que restara no momento.

O único amor que restava era pelas flores que ainda cultivava em um cantinho no quintal. Todos os dias as regava, conversava e se despedia. Eram as únicas a compreender a sua solidão.

À noite, pegava o seu casaco de pele, acendia o candelabro e relembrava suas noites em bordeis. Ao som de uma cantiga, bailava como se ainda sentisse o calor do corpo alheio tocar-lhe com força, rodopiando por todo salão e encantando quem ali estava. Num breve momento sentiu seu par conceder o prazer da dança a alguém conhecido. Alguém que acompanhara por todo esse tempo. O calor já não era mais sentido, um frio e um leve parar tomou a atmosfera naquela noite. Já não sentia mais desejo em continuar. Apagou com um triste sopro as velas e tomou-se a chorar.

Já estava acostumada com a sua presença, não emitindo qualquer palavra em retruco. Deitou-se então em seu canto ainda quente de noites passadas, esperando apenas mais um horizonte para olhar. E assim anoitecia, e a solidão a consumia. Nem lágrimas, nem flores enfeitarão a sua solidão.

E nem cruz, nem nome estarão no local onde a enterrarão!
Nem cruz... Nem flores...

O Bom velhinho (Por Tiago de Oliveira)

O Bom Velhinho


João do Baleiro vestia a roupa do papai Noel no dia de natal. Saía pelas ruas distribuindo balas às crianças e a quem por ele se afeiçoasse. Era como uma identidade secreta, fantasiado do bom velhinho. A mesma roupa especial ele usava há muitos anos. O corpo cada vez mais esquálido, encardido e desengonçado, perambulava as ruas. Mancava da perna direita e esse era o detalhe que para ele era a chave de seu segredo. No dia de natal e, somente nesse dia, ele não usava muletas. Ficavam guardadas, escondidas sob o colchão velho, como se um dia alguém tivesse tido a curiosidade de descobrir a verdadeira identidade do Noel aleijado. As crianças corriam como se enlouquecidas quando ele, com apito, anunciava a chegada. Gritavam “Jogue aqui, papai Noel! Papai Noel, jogue aqui!” Era sempre uma festa. Durante todo o ano ele economizava parte de sua pensão do INSS para, naquele dia especial, distribuir os doces.

O resto dos dias do ano, João do Baleiro era João do Baleiro e só. Há tempos não sabia o verdadeiro nome. Quando estava sem a roupa vermelha do natal, ele exibia no braço a tatuagem escura com o rosto de uma mulher. Quando lhe perguntavam quem era, respondia: “uma dona aí”. “Daqui num sai mais nunca” – ele dizia. E não sairia mesmo, pelo menos até que lhe comessem as carnes os bichos miúdos do cemitério. Não sairia da pele nem da cabeça.

Contava então os dias para o natal. Os meses passavam numa vagareza só até chegar dezembro, quando ele começava a pechinchar as balas, quando finalmente, em 25 desse mês, ele se transformava em Papai Noel. E durante todo esse dia, jogaria as balas a pedido da criançada, e se esqueceria que, à noite, não pregaria os olhos com uma dor insuportável nas pernas por causa da falta das muletas e que a passaria completamente sozinho.

Por Tiago de Oliveira em 23/12/2010